Eduardo Bueno
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04/02/2010

Uma experiência de Nabokov
O livro inacabado de Vladimir Nabokov - O Original de Laura (Alfaguera/Objetiva) - é, antes de mais nada, a mais bela edição brasileira de qualquer livro, álbum, pocket, de todos os formatos e para todos os públicos. Mesmo dos infantis, que foram os primeiros a romper com o sigilo intelectual determinado pela lógica do texto impresso e souberam recriar a imagem a traço e ilustração, além do desenho inspirador das páginas coloridas. O fato incontestável de que a palavra foi sugerida antes pelo olhar, uma conquista da leitura para sempre.

Um dos melhores argumentos em defesa do livro como papel nesse aparentemente desigual conflito com os textos virtuais é que ele tem cheiro, um cheiro inexplicável como resultado da lenta e artesanal construção do livro, uma acumulação adocicada, que é da tinta, da cola, do manuseio, da conformidade de uma parte com a outra. O livro do Nabokov, finalmente editado pelo filho Dimitri, tanto tempo depois de ser deixado como manuscrito de fundo de gaveta, e que deveria ser deletado, destruído, eliminado, de acordo com as ordens repetitivas de última página, proferidas pelo autor como o mais contraditório desfecho de uma obra de arte, descerra uma experiência incomum.

Gosto das coisas inacabadas, me cansa um pouco a repetição conclusiva do que ficou pronto e assim deve ser considerado como definitivo. Suspeito de que se poderia ir adiante ou ficar antes na contemplação de uma possibilidade não experimentada. Aprendi que somos incompletos e, por isso, insatisfeitos, quase sempre infelizes de um jeito que não é grave, mas persistente. O Original de Laura é comprometidamente incompleto, inacabado, quase quebrado, mas muito sugerido. Deve ser lido com sobressaltos e cautela.

A grande tarefa do leitor é a de ser também um autor anexo a cada fragmento. As sugestões são de um romance devastador dos bons sentimentos, amostragem compassiva de escárnio e putrefação, com mínima sobrevivência do que possa estar acima desse universo em destruição e perda. Mas, talvez porque esteja obscuro e desapiedado, poucas vezes me senti tão entusiasmado com o efeito ardente de um texto.

 
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